O processo de erosão se acentuou na década de 70 com projetos de cultivo de eucalipto incentivados pelo governo.

Januária fica na margem esquerda do rio São Francisco, no norte de Minas, região intermediária entre a nascente e a foz do rio, por isso, conhecida pelo nome de médio São Francisco.

Seus casarios coloniais são o registro de uma época em que a vida da cidade se concentrava no porto, onde os vapores atracavam carregados de gente e mercadorias.

A época dos vapores já faz parte do passado. As águas do rio já não chegam até o porto da cidade.

No seu lugar ancorou um gigantesco banco de areia e terra, fazendo o leito do São Francisco mudar de direção. Agora ele passa ao largo, se afastando de Januária.

A imagem dos vapores ilustra os muros da cidade e ficou gravada também na memória dos moradores mais antigos, como o seu Manoel Vieira.

Globo Rural Eles encostavam aqui na cidade?

“Eles encostavam. Isso aqui era água, muita água. O rio perdeu 50%, 60% de água.”

O assoreamento é um dos problemas mais sérios do rio São Francisco. As águas só não diminuíram mais ainda até agora, porque a vazão do rio é controlada pelas barragens das hidrelétricas construídas no leito, mas nessa época de seca até barcos pequenos precisam tomar cuidado para não encalhar.

Seu Manoel navegou com o Globo Rural para mostrar o problema do assoreamento. O desembarque foi num banco de areia que avança rio adentro.

Globo Rural De onde vem essa areia toda?

“Das cabeceiras dos afluentes. Eles estão secando e a erosão está vindo das cabeceiras e vai depositando essa grande impureza, esse absurdo de areia, pau, folhas de árvore, colocando tudo no São Francisco. Não vai demorar muitos anos pra gente ver o São Francisco falecido. Se não cuidar imediatamente, mas espero em Deus que os mandantes possam enxergar que se esse rio morrer, antes dele, já morreu muita gente.”

Seguindo a explicação do seu Manoel, nós subimos em direção às cabeceiras dos afluentes do médio São Francisco para ver de perto a origem desse problema.

O rio Pardo é um dos principais afluentes do São Francisco. Muitos bancos de areia se formam nas curvas do rio. As águas têm tom barrento.

Hudson de Carvalho é supervisor do IEF, Instituto Estadual de Florestas, um órgão do governo de Minas que fiscaliza o meio ambiente. Ele diz que o rio Pardo não é o único nessa situação.

“Cinqüenta e três afluentes já secaram. O rio Pardo é um dos principais afluentes do São Francisco, com uma extensão de mais de 150 quilômetros e está todo nesta situação.”

Quando chove, a enxurrada arrasta milhões de toneladas de areia para o leito do São Francisco. Isso aconteceu por causa do desmatamento indiscriminado na bacia do rio, que não poupou nem as veredas, lugares úmidos povoados pela palmeira buriti, onde nascem a maioria dos rios.

Quando a mata existia, funcionava como se fosse uma esponja que armazenava a água da chuva no solo, por entre as raízes, fazendo com que escorresse lentamente para os rios. Sem a proteção da vegetação, a chuva lava a camada superficial do solo e carrega tudo para os rios.

É o que acontece em Januária, onde no final da década de 70 o desmatamento para o plantio de eucalipto atingiu um milhão de hectares. O projeto tinha incentivos fiscais do governo federal.

O sistema utilizado foi o correntão, dois tratores de esteira ligados por uma corrente de aço, que por onde passavam iam arrastando tudo, mas o solo arenoso não era apropriado para a cultura e maioria das áreas foi abandonada. Ao lado das veredas assoreadas ainda se vê os esqueletos dos eucaliptos.

Não restou quase nada da vereda Alegre, uma das maiores veredas da região. O desmatamento para o plantio de eucalipto chegou até dentro da vereda. Hoje a gente vê o assoreamento entupindo o lugar, onde antes havia muita água.

“Aqui tinha muita água. Não dava pra passar a pé. Hoje a gente vê essa situação, tudo assoreado. Nós sentimos muita dor com isso”, disse o agricultor Valdenizo Silva.

Valter Neves, biólogo do Instituto de Estudos Florestais, fala da velocidade com que a areia encobre os buritis da vereda.

“A areia está subindo cada dia mais, daqui a pouco vai chegar na copa. O buriti cresce menos do que o assoreamento.”

Globo Rural Vai entupir essa planta?

“Vai sufocar, vai matar. Daqui a cinco anos já não vai existir mais. As árvores estão desaparecendo no meio da areia. Estão secando também.”

O Ministério Público está levantando os nomes das empresas que desmataram, para intimá-los a fazer um reajuste de conduta, visando a recuperação da área.

A vereda Alegre foi desmatada por uma das maiores reflorestadoras do país, a Plantar, com sede em Belo Horizonte. Tarcísio Marques, diretor da empresa. diz que eles plantaram cerca de 20 mil hectares de eucaliptos na região, mas o projeto não deu certo.

A empresa, assim como outras que desmataram na região, foi acionada pelo Ministério Público e hoje faz um ajuste de conduta para tentar recuperar o estrago.

Globo Rural O que vai ser feito dessa área?

“Estamos em conjunto com os órgãos governamentais, pretendendo implantar uma reserva legal de propriedade particular, mas com monitoramento do órgão governamental. Seriam aproximadamente uns 20 mil hectare de reserva.”

Globo rural Não se deveria ter escolhido essa área pra esse tipo de atividade.

“De fato. Como os projetos eram incentivados, não se preocupava muito com a produtividade. O incentivo fiscal era voltado para o pólo florestal, com vistas na criação do aproveitamento da mão de obra ociosa, vistas a fixação do homem no campo, tudo voltado para o social nessa época.”

Mas o problema social da região só foi agravado com o desmatamento e abandono das áreas. Sem alternativa para viver, muitos moradores dessas áreas passaram a queimar a floresta que restou para a produção de carvão.

Jackson Rodrigues e Walison de Souza estão com 19 anos. Eles trabalham nos fornos de carvão desde os 12. A madeira que eles usam é retirada do cerrado que restou na região.

Globo Rural Quanto você está ganhando por mês?

“Na carteira está marcando R$ 260”, disse Walison.

Globo Rural O que você acha desse serviço Walison?

“Ruim demais, não dá pra sobreviver com um serviço desses não. O trabalho aqui não tem muita opção.”

Globo Rural O que é pior de trabalhar no carvão?

“Tirar o carvão do forno. É muito pesado e o pó prejudica muito a gente.”

Um desmatamento feito recentemente. No local será implantando uma pastagem. O pessoal já fez a destoca, deixou algumas árvores e já instalou uma bateria de fornos para a produção de carvão.

A área pertence a um fazendeiro da região. Com a chegada da fiscalização do IEF, o responsável pela área sumiu rapidamente.

Com o auxílio de um equipamento, o GPS, o fiscal do Instituto Estudos Florestais marca o local e depois identifica a área através de imagens de satélite. Trata-se de um desmatamento ilegal. Agora, resta localizar o proprietário e intimá-lo a pagar multa.

Globo Rural Porque é tão difícil barrar esse desmatamento ilegal e barrar a produção de carvão?

“Quando nós chegamos aqui, derrubamos 500 fornos. Depois de dois meses, verificamos que tinham 1.600 fornos de carvão. Nós termos derrubado esses fornos, gerou uma revolta muito grande da comunidade. Nós verificamos que uma das dificuldades é a condição social das pessoas que moram na zona rural, que têm no carvão a sua principal fonte de vida”, disse Hudson.

Em uma das inúmeras vilas do sertão de Januária, a população local vive da exploração do carvão. Dona Alice de Souza é líder da comunidade.

“Aqui todos queimam carvão pra sobreviver. O carvão é um meio de vida muito difícil para os pais de família e também não está havendo mais o que queimar. No momento está tudo destruído. A gente não quer mais continuar queimando. A gente quer um meio de vida mais digno, porque as pessoas que queimam passam necessidade. Quem ganha com isso é quem compra, porque nós ficamos mesmo é com o trabalho.”

Com apoio do governo, do Ministério Público e de outras entidades, várias alternativas estão sendo oferecidas a eles para substituir a exploração do carvão. Uma delas é a recuperação dos antigos engenhos de cana de açúcar. Outra é a produção de mel.

Seu João Cordeiro, por exemplo, que antes tirava carvão, virou apicultor e hoje percorre as outras comunidades do sertão ensinando o que aprendeu.

“Mexendo com abelha, nunca mais você vai querer saber de carvão. Nem você, nem ninguém da sua família. Carvão é morte. Só de você levar seu filho numa carvoeira, você não está ensinando a ele nada que presta.”

Fonte: http://www.globo.com/globorural